QUIOSQUES, R$ 10 MILHÕES E ELEIÇÃO: O DISCURSO DE ASSESSOR DO PREFEITO QUE LEVANTA QUESTIONAMENTOS
- Corumbá em Foco
- 19 de mar.
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19 de março de 2026
O episódio recente envolvendo Corumbá e Puerto Quijarro ultrapassa o campo da política cotidiana e entra em uma zona que exige atenção , jurídica, institucional e ética.
Vídeo retirado do Facebook
Um vídeo divulgado nas últimas horas mostra Baianinho (Irailton Oliveira Santana), assessor especial do então prefeito Gabriel Alves de Oliveira, participando de um evento em Corumbá com a presença da candidata Silvia, que disputa a prefeitura de Puerto Quijarro. O público é majoritariamente boliviano, residente na região de fronteira.
Pelos elementos observados, presença de candidata, apoiadores, linguagem e contexto, trata-se de um evento com claro direcionamento político-eleitoral, voltado à mobilização desse público.
É importante destacar: o trecho aqui analisado corresponde a parte da fala realizada no evento, mas que, por si só, já levanta questionamentos relevantes.
Na gravação, Baianinho afirma:
“Nós vamos construir aqui em Corumbá, no Porto Geral, um investimento de 10 milhões. Lá no Porto, na prainha, são 7 quiosques. Nós vamos investir e, com isso, vamos abrir mais espaço para nossos irmãos bolivianos irem lá vender sua mercadoria, para os irmãos bolivianos irem lá trabalhar, e vamos trazer esse projeto pra vocês.”
A fala é objetiva, e institucional.
Ao utilizar expressões como “nós vamos investir” e detalhar valores, estrutura e finalidade, o assessor especial não se posiciona como cidadão comum. Ele fala como parte, ou ao menos em nome, da administração pública.
E o contexto em que essa fala ocorre é determinante: um ambiente com características eleitorais, com presença de candidata estrangeira e público diretamente ligado a esse processo político.
A Constituição Federal, em seu artigo 37, determina que a administração pública deve obedecer aos princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade. Já a Lei nº 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa) estabelece, em seu artigo 11, que constitui ato de improbidade qualquer conduta que viole esses princípios.
Diante disso, os questionamentos não são apenas pertinentes, são necessários:
É adequado anunciar investimento público em um ambiente com direcionamento eleitoral?
Há respaldo institucional para esse tipo de manifestação?
Pode um agente público utilizar linguagem institucional em contexto que, ao que tudo indica, busca mobilizar eleitores de outro país?
O caso ganha ainda mais relevância quando se observa o histórico do próprio assessor.
Baianinho já exerceu mandato como vereador em Corumbá e teve seu diploma cassado pela Justiça Eleitoral. A decisão reconheceu a prática de abuso de poder econômico e captação ilícita de votos, incluindo o transporte irregular de eleitores provenientes da Bolívia durante o período eleitoral, além de outras irregularidades, resultando em sua inelegibilidade por oito anos.
Mas os elementos não param por aí.
Em publicação feita pela própria candidata Silvia em suas redes sociais, é relatada a realização de reunião em Corumbá, com sua presença, participação de agentes políticos locais e menção a compromissos voltados à implementação de ações no município boliviano, caso eleita.
As imagens divulgadas pela própria candidata mostram, inclusive, a presença da vereadora Hanna, filha de Baianinho, e também da mãe do prefeito Gabriel Alves de Oliveira, em agenda realizada na APAE.

Mãe do Prefeito, Candidata Silvia e Vereadora Hanna
Ou seja: não se trata de um episódio isolado.
Há um conjunto de fatos públicos, documentados e divulgados pelos próprios envolvidos, que demonstram a aproximação entre agentes políticos locais e uma candidatura estrangeira, em um contexto que, somado à fala institucional sobre investimento público, levanta questionamentos legítimos.
E há um elemento adicional que torna o cenário ainda mais sensível: os fatos ocorrem às vésperas do processo eleitoral em Puerto Quijarro, na Bolívia, marcado para o próximo dia 22.
Porque, nesse caso, não se discute apenas um discurso.
Discute-se:
— função pública
— influência política
— uso da palavra institucional
— e o limite entre cooperação e atuação eleitoral indireta
Na fronteira, a convivência entre povos é natural.
Mas quando a política começa a atravessar linhas que deveriam ser claras,
não é apenas a geografia que está em jogo.
É a responsabilidade pública.




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